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Split de pagamento e comissão: explicação prática para marketplace e plataformas

Entenda como funciona o split de pagamento em marketplaces e plataformas: quem recebe primeiro, regras de comissão e repasse, relatórios, conciliação financeira e erros comuns que viram disputa.
23 de fevereiro de 2026

Split não é só “dividir dinheiro”. É definir regras claras para que comissão, taxas e repasses não virem uma discussão infinita do tipo: “faltou repasse”.

Se a sua empresa opera (ou vai operar) um marketplace (vários vendedores) ou uma plataforma (vários prestadores), o financeiro vira parte do produto.

Porque, a partir do momento em que você cobra do cliente e repassa para terceiros, surgem dúvidas práticas como:

  • Quem recebe primeiro: a plataforma ou o vendedor?
  • O repasse acontece na hora ou dias depois?
  • A comissão incide sobre o quê (frete? desconto? impostos?)
  • Como conciliar o que foi vendido com o que caiu no banco?
  • Por que às vezes “some dinheiro” (spoiler: quase sempre é taxa, reembolso, chargeback ou regra mal definida).

Neste post, eu vou explicar o split de pagamento sem juridiquês e sem excesso de termos técnicos, do jeito que ajuda na operação do dia a dia.

Capa do artigo sobre split de pagamento e comissão

O que você vai ver aqui

  • O que é split de pagamento (e o que ele não é).
  • Quem “recebe primeiro” e por que isso depende do modelo.
  • Como definir regras de comissão e repasse sem ambiguidade.
  • Relatórios e conciliação: como bater pedido × transação × repasse.
  • Erros comuns que viram disputa (e como evitar).

Fluxo básico do split em marketplaces

1) O que é split de pagamento (na prática)

Split de pagamento é a capacidade de dividir automaticamente o valor de uma compra entre dois ou mais recebedores (por exemplo: vendedor e plataforma), com base em regras pré-definidas.

Em vez de a plataforma receber tudo e “fazer planilha de repasse”, o split permite:

  • separar o que é venda do vendedor;
  • separar o que é comissão da plataforma;
  • separar (quando aplicável) outras parcelas: entregador, afiliado, taxas, parceiro etc.

A ideia principal é simples: cada transação já nasce “contabilizada” para cada parte envolvida.

Importante: split não elimina repasse.
Ele organiza o dinheiro em “caixinhas” (saldos) e o repasse para banco acontece conforme uma agenda (por exemplo D+7, semanal, quinzenal).

2) Quem recebe primeiro? (a pergunta que todo mundo faz)

Essa pergunta aparece em quase todo projeto porque os modelos variam. Na prática, existem dois “tempos” diferentes:

  1. Momento da venda (transação): quando o cliente paga e a regra de split é aplicada
  2. Momento do repasse (payout): quando o dinheiro efetivamente cai na conta bancária de cada recebedor

Por isso, você pode ver cenários como:

  • “A venda foi hoje, mas o repasse é em D+7”.
  • “O dinheiro fica em saldo retido até confirmar entrega / reduzir risco”.
  • “O vendedor só recebe quando completar cadastro bancário / verificação”.

Em outras palavras: o split define para quem é o dinheiro; o repasse define quando ele chega ao banco.

3) Três modelos comuns para marketplace (e como eles mudam o “repasse”)

Existem variações, mas a maioria dos projetos cai em um destes modelos.

Modelo A: split na transação (o mais comum em marketplace)

O cliente paga uma vez, a regra é aplicada, e cada recebedor passa a ter seu saldo.

O repasse segue uma agenda (por exemplo, semanal).
Esse modelo reduz planilhas e tende a escalar melhor.

Modelo B: repasse posterior (o “financeiro manual”)

O cliente paga e o valor entra todo na conta da plataforma.
Depois, a plataforma calcula comissão e faz os repasses por fora (manual ou via automação própria).

No começo parece “mais simples”, mas em volume normalmente vira:

  • operação cara;
  • alto risco de erro;
  • discussão recorrente com parceiros (principalmente por datas e taxas).

Modelo C: split com retenção (hold/escrow) por evento

Esse é comum quando existe um “evento de liberação”, por exemplo:

  • entrega confirmada;
  • serviço concluído;
  • janela de cancelamento acabou.

O dinheiro pode ficar retido no saldo e só então ser liberado para repasse.

Comparação entre split na transação e repasse posterior

4) Regras de comissão e repasse: o que definir antes de colocar no ar

A maior parte das disputas não é “bug”. É regra ambígua.

Abaixo está um checklist de definições que resolve 80% do problema.

4.1 Defina a base de cálculo da comissão

Explique com frases do tipo “incide sobre…”.

Exemplos (escolha um e documente):

  • Comissão incide sobre o subtotal dos itens (sem frete).
  • Comissão incide sobre subtotal + taxa de serviço.
  • Comissão incide sobre o valor líquido (depois das taxas do meio de pagamento).
    (Cuidado: isso muda a leitura do vendedor.)

Regras que precisam estar explícitas:

  • desconto/cupom reduz a base de comissão?
  • frete entra na comissão?
  • taxas de serviço entram na comissão?
  • impostos entram na comissão (quando aplicável)?
  • arredondamento: como tratar centavos?

4.2 Defina “quem paga as taxas” (e como isso aparece no relatório)

Existem duas leituras possíveis:

  • taxas são custo da plataforma (o vendedor recebe mais previsível);
  • taxas são custo do vendedor (mais alinhado a “você paga pelo meio de pagamento”).

O problema é quando ninguém define isso e o parceiro compara “bruto do pedido” com “líquido depositado”.

4.3 Defina quando o repasse acontece (prazo e gatilho)

Pontos que precisam ficar claros:

  • agenda: diário, semanal, quinzenal?
  • regra por status: pago, entregue, aceito, concluído?
  • existe retenção inicial para novos vendedores? por quanto tempo?
  • existe valor mínimo para repasse (ex.: só repassar acima de X)?

Dica: sempre explique a diferença entre data da venda e data do repasse.

4.4 Defina como tratar reembolso e chargeback (isso evita 90% das brigas)

Eventos típicos que afetam repasse:

  • reembolso total;
  • reembolso parcial;
  • cancelamento antes da captura (quando aplicável);
  • chargeback/contestação (cartão).

O que você precisa documentar:

  • o que acontece com a comissão em caso de reembolso? devolve? mantém?
  • se já houve repasse e depois veio reembolso, como é feito o ajuste?
    (normalmente vira “saldo negativo” e desconta no próximo repasse)
  • quem é responsável em caso de chargeback? vendedor, plataforma ou ambos?
    (isso precisa estar no contrato, mas o app precisa refletir no relatório)

Exemplo ilustrativo (só para visualizar)

Suponha uma venda de R$ 200,00 em um marketplace:

  • comissão: 10% (R$ 20,00)
  • taxas do meio de pagamento: R$ 6,50 (exemplo fictício)
  • líquido do vendedor: R$ 173,50

A pergunta que você precisa responder é: as taxas saem de quem?
E como isso aparece para o vendedor: “taxas” separado ou “líquido final”.

5) Relatórios e conciliação financeira: como “bater” sem dor de cabeça

Conciliação financeira para marketplace é basicamente responder, com rastreabilidade:

  1. O que o usuário comprou (pedido no seu sistema)
  2. O que foi pago e aprovado (transação no meio de pagamento)
  3. O que foi repassado e quando (payout/repasse no banco)

Para isso, você precisa de identificadores consistentes:

  • ID do pedido (seu sistema)
  • ID da transação (gateway/PSP)
  • ID do repasse (payout/lote)
  • ID do recebedor (vendedor/prestador)

A melhor conciliação é a que qualquer pessoa do financeiro consegue seguir sem “ligar para TI”.

Exemplo de planilha de conciliação

5.1 O que um bom relatório de repasse precisa ter

No mínimo, para cada vendedor:

  • período do relatório (de/até)
  • lista de vendas (pedido/itens)
  • bruto
  • comissão
  • taxas (se aplicável)
  • ajustes (reembolso, chargeback, bônus, descontos)
  • líquido
  • status (pago, pendente, retido, reembolsado)
  • data/ID do repasse (quando cair no banco)

5.2 Como evitar o clássico “faltou repasse”

Quase sempre o “faltou repasse” é um destes casos:

  • o vendedor está olhando o bruto, mas recebeu o líquido
  • o repasse é em D+7 e o vendedor espera “D+0”
  • houve reembolso/chargeback e virou ajuste
  • cadastro bancário/KYC estava incompleto e o repasse ficou retido
  • o carrinho tinha mais de um vendedor e houve rateio de frete/desconto

Se o relatório mostrar isso claramente, a disputa normalmente morre em 5 minutos.

6) Erros comuns que viram disputa (e como prevenir)

O jeito mais rápido de reduzir atrito é antecipar as dúvidas.

Erros comuns que viram disputa

Para prevenir, use estas práticas simples:

  1. Documente a regra de split com exemplos numéricos
  2. Mostre “bruto vs líquido” no painel do vendedor
  3. Explique o prazo de repasse (com datas)
  4. Tenha uma tela de “ajustes” (reembolso/chargeback)
  5. Use IDs de transação e repasse no relatório (para auditoria)
  6. Versão de regra: se a comissão mudar, registre “a partir de quando”

Checklist final (copie e use antes do lançamento)

  • A comissão está definida (base, percentual/fixo, arredondamento).
  • Está claro quem paga taxas e como isso aparece no extrato.
  • O prazo de repasse está definido e comunicado (D+X).
  • Reembolso e chargeback têm regra de ajuste (inclusive pós-repasse).
  • Existe relatório por vendedor (vendas, taxas, comissão, ajustes, repasse).
  • IDs de pedido/transação/repasse estão conectados.
  • Foi feito um teste de ponta a ponta com cenários reais (venda, reembolso, carrinho com 2 vendedores).

Se você resolver estes pontos, a operação financeira do marketplace deixa de ser “bomba relógio” e vira um processo previsível e auditável.

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