Blog
Nossas últimas novidadesSplit de pagamento e comissão: explicação prática para marketplace e plataformas
Split não é só “dividir dinheiro”. É definir regras claras para que comissão, taxas e repasses não virem uma discussão infinita do tipo: “faltou repasse”.
Se a sua empresa opera (ou vai operar) um marketplace (vários vendedores) ou uma plataforma (vários prestadores), o financeiro vira parte do produto.
Porque, a partir do momento em que você cobra do cliente e repassa para terceiros, surgem dúvidas práticas como:
- Quem recebe primeiro: a plataforma ou o vendedor?
- O repasse acontece na hora ou dias depois?
- A comissão incide sobre o quê (frete? desconto? impostos?)
- Como conciliar o que foi vendido com o que caiu no banco?
- Por que às vezes “some dinheiro” (spoiler: quase sempre é taxa, reembolso, chargeback ou regra mal definida).
Neste post, eu vou explicar o split de pagamento sem juridiquês e sem excesso de termos técnicos, do jeito que ajuda na operação do dia a dia.
O que você vai ver aqui
- O que é split de pagamento (e o que ele não é).
- Quem “recebe primeiro” e por que isso depende do modelo.
- Como definir regras de comissão e repasse sem ambiguidade.
- Relatórios e conciliação: como bater pedido × transação × repasse.
- Erros comuns que viram disputa (e como evitar).
1) O que é split de pagamento (na prática)
Split de pagamento é a capacidade de dividir automaticamente o valor de uma compra entre dois ou mais recebedores (por exemplo: vendedor e plataforma), com base em regras pré-definidas.
Em vez de a plataforma receber tudo e “fazer planilha de repasse”, o split permite:
- separar o que é venda do vendedor;
- separar o que é comissão da plataforma;
- separar (quando aplicável) outras parcelas: entregador, afiliado, taxas, parceiro etc.
A ideia principal é simples: cada transação já nasce “contabilizada” para cada parte envolvida.
Importante: split não elimina repasse.
Ele organiza o dinheiro em “caixinhas” (saldos) e o repasse para banco acontece conforme uma agenda (por exemplo D+7, semanal, quinzenal).
2) Quem recebe primeiro? (a pergunta que todo mundo faz)
Essa pergunta aparece em quase todo projeto porque os modelos variam. Na prática, existem dois “tempos” diferentes:
- Momento da venda (transação): quando o cliente paga e a regra de split é aplicada
- Momento do repasse (payout): quando o dinheiro efetivamente cai na conta bancária de cada recebedor
Por isso, você pode ver cenários como:
- “A venda foi hoje, mas o repasse é em D+7”.
- “O dinheiro fica em saldo retido até confirmar entrega / reduzir risco”.
- “O vendedor só recebe quando completar cadastro bancário / verificação”.
Em outras palavras: o split define para quem é o dinheiro; o repasse define quando ele chega ao banco.
3) Três modelos comuns para marketplace (e como eles mudam o “repasse”)
Existem variações, mas a maioria dos projetos cai em um destes modelos.
Modelo A: split na transação (o mais comum em marketplace)
O cliente paga uma vez, a regra é aplicada, e cada recebedor passa a ter seu saldo.
O repasse segue uma agenda (por exemplo, semanal).
Esse modelo reduz planilhas e tende a escalar melhor.
Modelo B: repasse posterior (o “financeiro manual”)
O cliente paga e o valor entra todo na conta da plataforma.
Depois, a plataforma calcula comissão e faz os repasses por fora (manual ou via automação própria).
No começo parece “mais simples”, mas em volume normalmente vira:
- operação cara;
- alto risco de erro;
- discussão recorrente com parceiros (principalmente por datas e taxas).
Modelo C: split com retenção (hold/escrow) por evento
Esse é comum quando existe um “evento de liberação”, por exemplo:
- entrega confirmada;
- serviço concluído;
- janela de cancelamento acabou.
O dinheiro pode ficar retido no saldo e só então ser liberado para repasse.
4) Regras de comissão e repasse: o que definir antes de colocar no ar
A maior parte das disputas não é “bug”. É regra ambígua.
Abaixo está um checklist de definições que resolve 80% do problema.
4.1 Defina a base de cálculo da comissão
Explique com frases do tipo “incide sobre…”.
Exemplos (escolha um e documente):
- Comissão incide sobre o subtotal dos itens (sem frete).
- Comissão incide sobre subtotal + taxa de serviço.
- Comissão incide sobre o valor líquido (depois das taxas do meio de pagamento).
(Cuidado: isso muda a leitura do vendedor.)
Regras que precisam estar explícitas:
- desconto/cupom reduz a base de comissão?
- frete entra na comissão?
- taxas de serviço entram na comissão?
- impostos entram na comissão (quando aplicável)?
- arredondamento: como tratar centavos?
4.2 Defina “quem paga as taxas” (e como isso aparece no relatório)
Existem duas leituras possíveis:
- taxas são custo da plataforma (o vendedor recebe mais previsível);
- taxas são custo do vendedor (mais alinhado a “você paga pelo meio de pagamento”).
O problema é quando ninguém define isso e o parceiro compara “bruto do pedido” com “líquido depositado”.
4.3 Defina quando o repasse acontece (prazo e gatilho)
Pontos que precisam ficar claros:
- agenda: diário, semanal, quinzenal?
- regra por status: pago, entregue, aceito, concluído?
- existe retenção inicial para novos vendedores? por quanto tempo?
- existe valor mínimo para repasse (ex.: só repassar acima de X)?
Dica: sempre explique a diferença entre data da venda e data do repasse.
4.4 Defina como tratar reembolso e chargeback (isso evita 90% das brigas)
Eventos típicos que afetam repasse:
- reembolso total;
- reembolso parcial;
- cancelamento antes da captura (quando aplicável);
- chargeback/contestação (cartão).
O que você precisa documentar:
- o que acontece com a comissão em caso de reembolso? devolve? mantém?
- se já houve repasse e depois veio reembolso, como é feito o ajuste?
(normalmente vira “saldo negativo” e desconta no próximo repasse) - quem é responsável em caso de chargeback? vendedor, plataforma ou ambos?
(isso precisa estar no contrato, mas o app precisa refletir no relatório)
Exemplo ilustrativo (só para visualizar)
Suponha uma venda de R$ 200,00 em um marketplace:
- comissão: 10% (R$ 20,00)
- taxas do meio de pagamento: R$ 6,50 (exemplo fictício)
- líquido do vendedor: R$ 173,50
A pergunta que você precisa responder é: as taxas saem de quem?
E como isso aparece para o vendedor: “taxas” separado ou “líquido final”.
5) Relatórios e conciliação financeira: como “bater” sem dor de cabeça
Conciliação financeira para marketplace é basicamente responder, com rastreabilidade:
- O que o usuário comprou (pedido no seu sistema)
- O que foi pago e aprovado (transação no meio de pagamento)
- O que foi repassado e quando (payout/repasse no banco)
Para isso, você precisa de identificadores consistentes:
- ID do pedido (seu sistema)
- ID da transação (gateway/PSP)
- ID do repasse (payout/lote)
- ID do recebedor (vendedor/prestador)
A melhor conciliação é a que qualquer pessoa do financeiro consegue seguir sem “ligar para TI”.
5.1 O que um bom relatório de repasse precisa ter
No mínimo, para cada vendedor:
- período do relatório (de/até)
- lista de vendas (pedido/itens)
- bruto
- comissão
- taxas (se aplicável)
- ajustes (reembolso, chargeback, bônus, descontos)
- líquido
- status (pago, pendente, retido, reembolsado)
- data/ID do repasse (quando cair no banco)
5.2 Como evitar o clássico “faltou repasse”
Quase sempre o “faltou repasse” é um destes casos:
- o vendedor está olhando o bruto, mas recebeu o líquido
- o repasse é em D+7 e o vendedor espera “D+0”
- houve reembolso/chargeback e virou ajuste
- cadastro bancário/KYC estava incompleto e o repasse ficou retido
- o carrinho tinha mais de um vendedor e houve rateio de frete/desconto
Se o relatório mostrar isso claramente, a disputa normalmente morre em 5 minutos.
6) Erros comuns que viram disputa (e como prevenir)
O jeito mais rápido de reduzir atrito é antecipar as dúvidas.
Para prevenir, use estas práticas simples:
- Documente a regra de split com exemplos numéricos
- Mostre “bruto vs líquido” no painel do vendedor
- Explique o prazo de repasse (com datas)
- Tenha uma tela de “ajustes” (reembolso/chargeback)
- Use IDs de transação e repasse no relatório (para auditoria)
- Versão de regra: se a comissão mudar, registre “a partir de quando”
Checklist final (copie e use antes do lançamento)
- A comissão está definida (base, percentual/fixo, arredondamento).
- Está claro quem paga taxas e como isso aparece no extrato.
- O prazo de repasse está definido e comunicado (D+X).
- Reembolso e chargeback têm regra de ajuste (inclusive pós-repasse).
- Existe relatório por vendedor (vendas, taxas, comissão, ajustes, repasse).
- IDs de pedido/transação/repasse estão conectados.
- Foi feito um teste de ponta a ponta com cenários reais (venda, reembolso, carrinho com 2 vendedores).
Se você resolver estes pontos, a operação financeira do marketplace deixa de ser “bomba relógio” e vira um processo previsível e auditável.